Em cartaz nos cinemas Vampiro 40º“, o longa de terror produzido por Luiz Carlos e Lucy Barreto subverte os cânones que sustentam atualmente o mercado exibidor de filmes nacionais: comédias de situação sustentadas pelo carisma de astros da televisão, filmes que estilizam a miséria e produções com temática regionalista temperada na maionese globalizada do fino acabamento. “Falta sensualidade e terror na cinematografia brasileira hoje. Já não se fazem mais filmes dessa natureza, só vemos comédia na maior parte do tempo. Parece que sexo é um assunto proibido no cinema”, afirma Barretão, falando sobre o excesso de sensualidade e violência do filme. História de vampiros ambientada na Cidade Maravilha – ou Rio 40º, cidade purgatório do caos, como diria o autor, roteirista, compositor e ator Fausto Fawcett, por trás de tudo –, o filme se ampara na premissa de que o solar Rio de Janeiro, pátria-mãe das mulatas, bundas, samba, carnaval e criaturas que desfilam na urbe seminuas, esconde nas entranhas um submundo sombrio no qual a luta pelo poder transcorre protagonizada por vampiros, esses assumindo o papel que cabe neste latifúndio aos comandos, facções e milícias.

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Vampiro 40º: Fausto Fawcett e sua moçada apresentam ao público uma Copacabana bafônica que foge das areias escaldantes, regada a um coquetel molotov de sexo e sangue e povoada por vampiras munidas de calcinhas exocet (Foto: Divulgação)

Cria dos anos 1980, Fawcett pode se dar ao luxo de trazer da sua memória afetiva um rescaldo daquele ambiente tão insalubre quanto divertido da Copacabana de trinta anos atrás, tomada de assalto pelo underground dos moderninhos góticos e darks que, numa existência desprovida de globalização tinham que se contentar em ouvir vinis trazidos de Nova York e Londres de bandas como Siouxsie and the Banshees e Sisters of Mercy em inferninhos bacanudos como o Crepúsculo de Cubatão e Ilha dos Mortos, onde se revezavam entre três atividades: dançar virado para a parede, soprar modernidade urbana no balneário e cheirar na pia do banheiro.

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Bela Lugosi is not dead e fugiu para o Rio: o inferninho Crepúsculo de Cubatão, cravado na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, marcou uma geração de cariocas noturnos que transformou o clube no epicentro de um Rio sombrio e muito mais divertido entre 1984 e a virada dos anos 1990. Na pista de dança no subsolo, criaturas da noite faziam a egípcia muto antes de o termo ser cunhado, querendo emular vampiros numa época em que o menino do Rio imperava no imaginário do comportamento médio. Se surgisse trajado com seus bermudões da Company entre as paredes pretas da boate, André De Biase corria o risco de ser esquartejado por vários maníacos do parque (Foto: Reprodução)

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Fausto Fawcett: poeta do submundo urbano, o roteirista, compositor e ator dá vida em “Vampiro 40º” ao sanguessuga Wlak, tragado no meio a a uma disputa de poder no Rio Babilônia (Foto: Divulgação)

Confira abaixo o trailer de “Vampiro 40º (Divulgação): 

Lá pelas altas horas, essa turma saía de lá tresloucada para dar expediente nas biroscas onde o pancadão do funk começava a dar as caras, aportando na Zona Sul direto do subúrbio. Fawcett estourou na cena musical mainstream em 1987, quando seu hit Katia Flávia, a Godiva do Irajáse tornou trilha sonora da prostituta interpretada por Malu Mader em O Outro“, novela global de Aguinaldo Silva que atualizava na Copa da época o clássico O Príncipe e o Mendigo.

Confira abaixo o clipe de “Kátia Flávia”, sucesso oitentista de Fausto Fawcett regravado pro Fernanda Abreu para o álbum “Raio X”, que sintetiza o universo do compositor registrado em “Vampiro 40º” (Divulgação):  

Foi nesse ambiente encravado no paredão urbano dos edifícios que compõem o bairro carioca que Fausto se fez, abdicando do bronze na areia para cair de cabeça no asfalto, acompanhado por bêbados, poetas, músicos, designers, estilistas wannabes, gays, héteros, porteiros de prédio em busca da sua caninha da roça, atores frustrados e até louraças belzebu, daquelas de cair o queixo enquanto outra coisa sobe. Dessas noites envenenadas, ele tragou seu repertório aquecido pelo bafo quente que revelou ao mundo as Kátias Flávias Godivas do Irajá e concebeu entidades tão curiosas quanto descartáveis, como Regininha Portergeist.

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Entre grafites e guimbas de cigarro, Otto Jr. transita pela noite em “Vampiro 40º”, filme que revela uma Copacabana sombria caótica que os gringos em busca de mulatas até curtem, mas não fotografam, nem tiram selfies (Foto: Divulgação)

Agora, coube ao diretor Marcelo Santiago apresentar às novas gerações essa interessante salada que só a mente de Fawcett pode evocar, requentando as temporadas de Vampiro Carioca“, série que foi exibida no Canal Brasil. Nessa leitura quadrinesca do bas-fond carioca, o filme acerta na estética à la Robert Rodriguez, mas pisa na boa na narrativa, que poderia divertir bem mais do que a explosão de volúpia e pancadaria que se sucede nas telas. Okay, em certo momento o massacre da serra elétrica ganha suíngue, mas é pouco. Esse exercício formal é capaz de dar muito mais caldo e não foi agora que essa possível nova vertente do cinema nacional encontrou se caminho, mas a porta está aberta.

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Blade Copa: Renata Davies segura a onda em “Vampiro 40º”, longa brazuca que tem o mérito de abrir portas no cinemão para produções que fogem da santíssima trindade dos exibidores, para quem cinema nacional se resume a comédia, pobreza estilizada e filme com temática gay (Foto: Divulgação)

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Massacre da serra elétrica versão Cristo Redentor: com suas madeixas ruivas 6.66 (louro escuro vermelho intenso, segundo a cartela da Majirel), Renata Davies dizima desafetos durante os 78 minutos de projeção de “Vampiro 40º”. Os cabelos saem intactos! (Foto: Divulgação).

O cinema imita o cinema:

Não é de hoje que a insólita proposta de reunir o Rio e vampiros dá samba: As sete vampiras“, de Ivan Cardoso, e o episódio protagonizado por Tonico Pereira e Roberta Rodrigues em Rio, eu te amo“, de Sang-soo Im, já brincavam com essa ideia. Obviamente, o sol abrasivo e calor escaldante da cidade são motivos suficientes para qualquer vampiro ficar anos-luz daqui, sob o risco de virar pó só de respirar o ar abafado, mesmo que na penumbra e coberto por toneladas de protetor solar. A não ser, claro, que seja irresistível o desejo de frequentar caixa eletrônico de banco trajado de sunga no período que vai do por do sol às dez da noite, quando os terminais saem do ar.

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Em “As sete vampiras” (1986), uma Lucélia Santos no auge cravava seus caninos de ex-Escrava Isaura na jugular de Pedro Cardoso, bem antes deste se tornar um implacável caça-paparazzi (Foto: Reprodução)

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“Estou morto, mas não estou morto, ué!”. No segmento de “Rio, eu te amo” (2014) “O Vampiro do Rio”, de Sang-soo Im, Tonico Pereira é um garçom vampiro morador do Vidigal que anda de garupa na lambreta da negona de responsa interpretada por Roberta Rodrigues. Obviamente, o morto-vivo não troca uma carninha na brasa por nenhum litro de sangue (Foto: Divulgação)

Sem dúvida, é essa improbabilidade intrínseca do argumento que torna palatável a ida às sala de exibição para conferir o resultado e ver litros de sangue jorrando. Afinal, num momento tão peculiar do Brasil e do Rio, quando nada parece dar certo, a pedida pode ser mesmo assumir esse cinismo noir de Fawcett, que mescla a profundeza kitsch com o jeitão carioca.

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