Ao longo dos dois séculos em que o Rio foi capital da Colônia, do Império e da República, seu porto não foi apenas o local de recepção de milhões de escravos apreendidos na África ou de exportação das nossas commodities agrícolas, atividades que reproduziam a posição periférica e atrasada do Brasil no concerto da civilização ocidental. Por ali também entraram preferencialmente todas as inovações, novidades, ideias e tendências gestadas em diversas partes do mundo e que moldaram a vida de gerações de brasileiros. Depois de algumas décadas de total decadência, a Zona Portuária da Cidade Maravilhosa, agora em processo de completa reurbanização e requalificação, continua canalizando para país os novos fluxos da criação planetária. Foi o que comprovou o Wired Festival Brasil que atraiu milhares de pessoas ao badalado Armazém da Utopia, durante dois dias para discutir futuros cenários.

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O Armazém da Utopia, na renovada e badalada Zona Portuária do Rio de Janeiro sediou o Wired Festival Brasil 2016, encontro que reuniu nos últimos dois dias cabeças pensantes e visionárias que estão antecipando o futuro com iniciativas no campo social, na tecnologia, na robótica, na moda, na gastronomia, nas artes, no entretenimento e no empreendedorismo (Foto: Flávio Di Cola)

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Tom Upchurch, diretor da Wired Consulting que publica a revista “Wired” do grupo Condé Nast – hoje associado ao Infoglobo e à Editora Globo no Brasil – fez a abertura do evento. A respeitada revista que tem como foco as novas tecnologia e seu impacto na vida humana escolheu o Rio como palco por ser a principal cidade lançadora de tendências do país (Foto: Flávio Di Cola)

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As palestras do Wired Festival Brasil 2016 ocorreram na Sala Reverb, no interior de um dos antigos armazéns do porto do Rio, hoje restaurados para acolher não mais as antigas commodities como o café, mas sim para distribuir os dois mais preciosos produtos da nossa civilização – conhecimento e inovação (Foto: Flávio Di Cola)

Palavras como robótica, design thinking, moda wearable, internet das coisas, internet de tudo, computação cognitiva, cultura maker, realidade mista, inovação disruptiva, cidade inteligente, blockchain e maker city foram pronunciadas a rodo nos diversos encontros, seminários, palestras, “ativações” e performances ao longo desta última sexta-feira (02/12) e sábado (03/12).

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Experiências sensoriais para todas as idades: Wired Festival Brasil contou com a presença de um público de todas as idades. Em comum? O interesse pelo futuro do globo (Foto: Divulgação

Um dos conceitos mais atraentes discutidos nesta edição tropical do Wired Festival e que será (ou já é…) um dos ingredientes mais poderosos na comunicação e no entretenimento do futuro foi o de “narrativa imersiva”, trazida pelo paulista Ricardo Laganaro, diretor de projetos audiovisuais e coordenador do departamento de 3D da O2 Filmes, produtora de ponta no cenário publicitário e cinematográfico do Brasil. Após a palestra que proferiu na Sala Reverb lotada do Armazém da Utopia, intitulada “Narrativas imersivas: o futuro e o presente do storytelling”, Laganaro concedeu entrevista exclusiva ao ÁS:

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Ricardo Laganaro, cineasta e coordenador do departamento de 3D da O2 Filmes mostrou como o ser humano sempre desejou projetar para fora suas mais tresloucadas narrativas e fantasias, até chegarmos às novas experiências audiovisuais proporcionadas pela combinação da Realidade Virtual com a Realidade Aumentada (Foto: Flávio Di Cola)

ÁS: Na sua fala de hoje, você remontou às primeiras civilizações humanas e às experiências pioneiras em estereoscopia do século 19 para comprovar que a arte e o poder de narrar – contemporaneamente também chamada de storytelling – são inerentes ao desejo do ser humano por expressar ideias e emoções as mais fantasiosas de forma imersiva. Mas o eventual fim da tela plana e o advento do 3D e dos 360 graus não estariam contrariando completamente a dramaturgia clássica construída ao longo dos séculos?

Ricardo Laganaro (RL): Não acho. Em princípio, as grandes leis da dramaturgia que remontam à Antiguidade permanecem válidas e atuantes. O que está mudando radicalmente em relação às criações para a tela plana é o processo de execução das narrativas e o seu poder imersivo que, literalmente, transportam as pessoas a lugares em que elas não estão e – na maioria dois casos – nunca estarão. Assim como ocorreu nas etapas passadas do cinema, em que o público precisou “reaprender” a olhar para a tela, o mesmo está ocorrendo agora.

ÁS: Atualmente, há muitas críticas à qualidade dos filmes 3D. Parte importante do público os rejeitam, além da sua grave deficiência que é a perda do brilho e do esplendor da imagem.

RL: É verdade. E algumas dessas deficiências também me incomodam. E aquilo que deveria ser um atrativo acaba passando para os frequentadores das salas de cinema a sensação de que é apenas mais um recurso para cobrar por um ingresso mais caro. Em minha opinião, são poucos os cineastas e os filmes produzidos em Hollywood ou na Europa que souberam usar com talento e adequação os recursos do 3D. Eu destacaria Pina [documentário alemão de 2011, dirigido por Wim Wenders sobre o trabalho da coreógrafa Pina Bauch], A invenção de Hugo Cabret [2012, de Martin Scorsese] e Avatar [2009, de James Cameron].

ÁS: E os temas tratados nessa nova etapa tecnológica do storytelling mudaram?

RL: Também não. Sob o ponto de vista temático, os grandes assuntos presentes na nossa cultura são aqueles universais como, por exemplo, as questões sobre a origem do universo e do homem, conteúdo do vídeo Cosmo que é projetado no teto do domo de entrada do Museu do Amanhã e uma das suas principais atrações.

http://www.o2filmes.com/outras-telas/cosmos–museu-do-amanha

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Dome de entrada do Museu do Amanhã, espaço especialmente desenhado para a projeção de “Cosmo”, primeiro conteúdo completamente imersivo em 3D e 360 graus (Foto: Bernard Lessa / Divulgação)

ÁS: O pioneirismo na criação desse primeiro vídeo completamente imersivo em 3D e 360 graus para o museu trouxe muitos desafios à sua equipe da O2 Filmes?

RL: Muitos! “Cosmo” significou um ponto de virada para a O2 que – depois dessa experiência – é uma outra produtora. Cada desafio precisou ser superado com muita paciência, num processo de criação que durou mais de um ano de intensas pesquisas e experiências, inclusive algumas curiosas como a de passar três dias dentro de um estúdio explodindo e queimando todo tipo de coisas para produzir diversos padrões de fumaça e fogo, posteriormente transformados em efeitos especiais na pós-produção. Aprendemos também como é necessário para esse formato um regime de cortes de cena completamente diferente em relação às narrativas projetadas em tela plana.

ÁS: E gravar o vídeo “Priceless cities” para a Mastercard em 3D e 360 graus do alto do Cristo Redentor?  Foi complicado?

RL: Se foi! [Risadas] Entre os desafios, tive de passar 24 horas no interior da cabeça e dos braços da estátua, inclusive dormir no pulso direito dela para esperar as nuances de luz de que precisávamos. Foi uma experiência incomum e muito forte.

ÁS: Por quê?

RL: Porque, de alguma forma, acaba afetando a sua espiritualidade.

24 HORAS NA MÃO DO CRISTO

Ricardo Laganaro dirigiu esta espetacular Visão 360 Graus do alto do Cristo  Redentor para a a campanha “Priceless Cities” da Mastercard que condensa um dia e uma noite da Cidade Maravilhosa. Para captar as imagens Ricardo precisou trabalhar e dormir 24 horas numa concavidade localizada no pulso direito da estátua. Confira manejando o botão localizado no canto superior direito com as flechas direcionais:

A expertise adquirida pela O2 durante a criação do vídeo imersivo para o dome do Museu do Futuro, no Rio de Janeiro, abriu uma nova frente de geração de conteúdo da produtora, como este videoclipe com Ivete Sangalo em 360 graus que também deve ser manejado pelo botão com as flechas direcionais:

Confira quem passou pelo Wired nesse final de semana, no Rio (Fotos de Reginaldo Costa Teixeira e Ricardo Toscani / Divulgação):   

Outras significativas apostas para o futuro puderam ser conhecidas no evento. Entre todas elas, o chef Alex Atala e robô Pepper encantaram o público. Confira abaixo:  

ALEX ATALA: “COMER É UM ATO POLÍTICO”
Uma das estrelas do Wired Festival Brasil foi o chef de cozinha, autor de livros, pesquisador de gastronomia e comandante do lendário D.O.M, em São Paulo, restaurante cativo na lista dos melhores do mundo segundo as mais reputadas publicações do setor. No evento, Atala levantou a bandeira por hábitos de alimentação mais inteligentes, saudáveis e responsáveis, mas sem abrir mão do sabor e do prazer, na palestra “O futuro da alimentação”. Esses princípios ele coloca em prática através da instituição de pesquisa que criou, a ATA.
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Além de se insurgir contra o desperdício e as interpretações culturais dos alimentos que considera errôneas, Atala condena a intervenção nefasta de legislações e do mercado que juntos corrompem a mais importante atividade humana – o ato de comer. Durante a palestra e a degustação de méis brasileiros, o chefe lembrou que o Brasil deixa de aproveitar o néctar de dezenas de espécimes diferentes de abelhas das nossas florestas devido a leis que protegem o mel produzido pelo inseto de origem europeia (Foto: Flávio Di Cola)

O OMBRO AMIGO NO FUTURO É UM ROBÔ E SE CHAMA PEPPER

Uma das inovações mais promissoras e fofas (por que não admitir?) apresentadas no Wired Festival Brasil foi Pepper, o primeiro robô pessoal emocional. É claro que ele é japonês e foi desenvolvido para enfrentar o preocupante declínio populacional do Japão e ajudar os milhões de futuros idosos que precisarão de companhia e de cuidados 24 horas por dia.

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Para Sean McKelvey, gerente de desenvolvimento da SoftBank Mobile, que apresentou imagens do robô durante o Wired Festival Brasil, Pepper não é apenas um robô, mas uma “companhia”, pois ele é capaz de interagir subjetivamente com os humanos porque reage às nossas emoções, analisando e processando o contexto do momento, as expressões da face humana, além do ritmo, da entonação, do volume e do nível de estresse das nossas vozes (Foto: Flávio Di Cola)

Confira agora o filmete que mostra o simpático Pepper no centro da vida emocional de famílias japonesas. Walcyr Carrasco perde!

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Segundo o fabricante do Pepper, a Nestlé está planejando equipar mais de 1000 pontos de venda da rede Nescafé Dolce Gusto no Japão com os robôs para receber, informar e entreter os clientes, funções que o amiguinho já exerce em outras 140 lojas japonesas (Foto: SoftBank Robotics)

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Enquanto Pepper não desembarca no Brasil, a menina desafia com uma careta o R1T1, um primo bem menos esperto do humanoide japonês e que zanzava pelo Armazém da Utopia (Foto: Flávio Di Cola)

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